segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O PESADELO DIÁRIO DE VIVER COMO UM FORAGIDO

27/10/2008
Pesadelo diário de viver como um foragido:

País tem 400 mil procurados pela Justiça; são pessoas como o pai da jovem Eloá, que temem serem descobertas em situações cotidianas.
Um pai desmascarado, frente a todo o País, no dia do enterro da filha. De repente, o vigilante Aldo José da Silva, de Santo André, era Everaldo Pereira dos Santos, ex-cabo da PM, procurado pela polícia de Alagoas desde 1993.
Para foragidos e ex-foragidos, é impossível pensar em pesadelo pior.Eles contam que a cada dia em liberdade parte do drama do pai de Eloá se materializa. Trata-se do constante medo de ser descoberto.
O Ministério da Justiça estima que existam 400 mil pessoas foragidas no País. Há também os que desrespeitam as saídas temporárias dos regimes penitenciários semi-abertos - em São Paulo, em 2007, foram 3.002, 5,1% dos 58.759 que saíram.
Entre os foragidos está Antonio*, que vive entocado num sítio no norte do Estado há quatro anos, sem ver a família há dois. Outro é Jonathan*, que ficou seis anos sob identidade falsa, submetendo mulher e duas filhas pequenas a esconder sua identidade.
E há Júlio*, que buscou liberdade na marra há duas semanas - acaba de pagar R$ 5 mil por documentos falsos e diz que, hoje, vai votar.A decisão de Júlio, comerciante de 28 anos, ainda está quente. Condenado por furto, cumpria pena em regime semi-aberto, depois de três anos na cadeia. Até que a Justiça decidiu rever a pena. Ele se desesperou - decidiu entrar na vida de fugitivo. Pagou por novos documentos - RG, CNH, CPF, certidão de nascimento, título de eleitor - e já começou a viver a rotina de quem se esconde. É o medo do azul e vermelho das sirenes, que iluminam as cortinas de casa à noite, na favela onde mora, na zona leste. “Mudei, saí da zona sul. Muda tudo, muda a vida, me sinto um cachorro acuado”, disse ao Estado, em contato feito por ele, por telefone, sem revelar seu paradeiro.Júlio costumava pegar o filho, de 4 anos, na saída da escola. Para comprovar que é pai do garoto, precisava apresentar documento de identidade. Desde que virou fugitivo, não apareceu mais na porta do colégio. “Vou ter de mudar de creche, para registrar o garoto com meu nome falso.” E assim vai comprar uma moto, registrar novo emprego e votar. “Vai ter de ser assim. A vida agora é assim.” Só não decidiu ainda como dizer ao filho que, de repente, mudou de nome. “Vai ser aos poucos.”
“Quando o chefe da família é foragido, a família toda é foragida”, diz Aurélia, mulher de Jonathan, que passou seis anos fugindo da Justiça, entre 1999 e 2005. “O pior era o olhar das meninas quando perguntavam o nome do pai”, comenta, ao lado das filhas, de 14 e 17 anos. “Ficavam perdidas.” Enquanto esteve foragido, ele se passou pelo irmão mais novo, falsificando a foto da CNH. “Os amigos que fiz na época acham que sou outra pessoa. Prefiro que me chamem pelo apelido.” Com nome falso, passou por três empregos - foi funcionário até da Prefeitura. E as meninas resolveram: questionadas, forneciam apenas o apelido do pai. “Dava medo até de comprar pão”, conta uma delas.
“Quando os foragidos aparecem, é para tentar regularizar a situação, mas muitos vêm apenas uma vez e não voltam”, diz o coordenador jurídico da Pastoral Carcerária da Arquidiocese, Pedro Yamaguchi, que enumera poucos atendimentos mensais de casos desse tipo - entre 5 e 10. “Geralmente, eles dizem que estão foragidos por ameaça de morte na cadeia ou por perseguição de funcionários.” A pastoral os recebe, mas não os protege.
Longe de solução parece estar o caso de Antonio, de 44 anos, escondido desde 2004 num sítio do norte do Estado. Ameaçado de morte por um policial, não vê perspectivas de voltar à vida normal, quando morava num condomínio de classe média no Jabaquara, zona sul de São Paulo. Planta abóboras, mandioca e feijão e sai à rua somente para compras básicas. “Uma ou duas vezes por mês”, disse ao Estado, também por telefone.
Condenado por porte de drogas em 2002, Antonio ficou na cadeia por dois anos, até ser absolvido por improcedência da ação. Logo que deixou a cadeia, porém, foi preso novamente pelo mesmo motivo - sustenta que o material foi “plantado” pelos policiais. Diz que foi perseguido por se envolver com a mulher de um policial. Anteriormente, malhava todos os dias. Hoje, está 15 quilos mais gordo. “Foi de propósito, para ficar mais difícil reconhecer”, admite seu advogado. “Sua vida hoje é um arremedo do que era.” (*Para preservar a identidade dos entrevistados, os nomes são fictícios)

Fonte: Estado de S. Paulo

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