quarta-feira, 18 de agosto de 2010

HISTÓRIA DE CANGUARETAMA, RIO GRANDE DO NORTE

POR:FRANCISCO ALVES GALVÃO NETO


É comum que toda cidade surja próximo a um porto ou nos arredores de uma igreja. Canguaretama não foi assim surgiu antes de se construir uma igreja, antes de ter um porto. Não era uma terra onde havia um rico proprietário, pelo contrário, a cidade surgiu onde moravam pobres descendentes de negros e índios. Política e administrativamente o município de Canguaretama somente passa a existir na segunda metade do século XIX, mas seu território já era habitado e disputado antes do século XV. Como município, tornou-se a continuidade de Cunhaú e Vila Flor. Poderíamos dizer que seus primeiros habitantes foram os índios potiguares, mas é bem provável que esses índios já tenham expulsado outros grupos para ocupar a área. Eram índios que se utilizavam da agricultura, conheciam bem a fauna, a flora e a geografia do lugar. Teriam sido absolutos nesse território que julgavam ser donos durante os séculos XV e XVI.

Durante o século XVI os franceses mantiveram intenso contato com os potiguares na localidade de Aretipicaba, hoje Baia Formosa, e Corimatai, hoje Barra do Cunhaú, para contrabandear pau-brasil.

Depois de fazer uma aliança de paz com os potiguares, expulsar os franceses e fundar a cidade de Natal, Jerônimo de Albuquerque doou, a 2 de maio de 1604, uma sesmaria aos seus filhos Antônio e Matias de Albuquerque. Eram cinco mil braças quadradas de terras, onde foi erguido o famoso Engenho Cunhaú, o primeiro da capitania. Além de muito açúcar, o engenho também produzia farinha de mandioca, milho e criava-se gado em abundância. Junto com o engenho vieram os primeiros colonos europeus, os negros escravos africanos e os padres católicos para pregar o evangelho na região.

Tudo ia muito bem com o engenho, mas outros problemas surgem distantes da colônia. Os holandeses temendo perder o controle do comércio do açúcar, desde que o Brasil passou a ser uma possessão da Espanha, decidiu invadir o nordeste brasileiro.

Tiveram êxito em 1630, invadindo a Capitania de Pernambuco e logo expandiram seu domínio até a Capitania do Rio Grande. Depois de tomar a Fortaleza dos Santos Reis e a cidade de Natal, conquistaram e destruíram o Fortim da Barra do Cunhaú. O Engenho Cunhaú foi confiscado pela “Companhia das Índias Ocidentais” e passou a ser administrado pelos holandeses.

A partir de 1643 os holandeses começaram a exigir mais lucros com a produção açucareira e também proibiram o culto católico. O pagamento do dízimo foi suspenso para que os senhores de engenho usassem os recursos para pagar os juros dos empréstimos concedidos para a reconstrução dos engenhos. A população não aceitava, porém não tinham muito o que fazer.

Com o clima de hostilidade que aumentava, em 15 de julho de 1645, Jacob Rabe, liderando uma milícia holandesa e um grupo de índios tapuias e potiguares chegou ao Engenho Cunhaú dizendo trazer instruções holandesas de Pernambuco. No dia seguinte, ordenou a matança do padre André de Soveral e de todos os fiéis que assistiam a missa dominical naquela manhã. 69 mortos. Poucos conseguiram fugir.

Ainda em 1645 foi iniciado um movimento que pôs fim ao domínio holandês, a Insurreição pernambucana. Pela primeira vez brancos, índios e negros se uniram e expressaram sua “brasilidade”, porém o Brasil continuou como colônia.

A partir de 1654 os holandeses desistiram do Brasil. A terra retornou às mãos dos portugueses, mas quase tudo precisava ser reconstruído. Casas, rebanhos, plantações, famílias, tudo tinha sido arrasado. Além do mais o preço do açúcar começou a cair devido a concorrência internacional.

A poucas léguas a leste do Engenho Cunhaú surgiu, ainda no século XVII, o aldeamento indígena de Gramació. O Alvará Régio de 23 de setembro de 1700 deu a esses índios uma légua quadrada de terra. Em 1743 o padre André do Sacramento iniciou a construção da Igreja de Nossa Senhora do Desterro, que foi concluída em 1645.

Com a Carta Régia de 3 de maio de 1755, Dom José I, rei de Portugal, elevou todos os aldeamentos indígenas da capitania à categoria de vila. O aldeamento de Gramació passou então a chamar-se de Vila Flor, porém a instalação oficial só veio a ocorrer em 1768.

No inicio do século XIX o Engenho Cunhaú estava novamente no apogeu. André de Albuquerque Maranhão comandava a maior riqueza que a capitania já havia visto em metais preciosos, terras, dinheiro, gado, escravos e utensílios. Movido pelas novas idéias de liberdade vindas da Europa, o senhor do Cunhaú aderiu a um movimento separatista iniciado em Pernambuco e transformou o Rio Grande do Norte em uma república, juntamente com Estados vizinhos. Foi a chamada Revolução Pernambucana de 1817, que não teve o apoio popular esperado.

Os contra revolucionários pegaram “Andrezinho do Cunhaú” de surpresa e depois de muita luta, ele foi ferido e levado preso para o calabouço da Fortaleza dos Santos Reis, onde faleceu na madrugada de 25 para 26 de abril de 1817.

Ninguém sabe dizer o que teria ocorrido se ele tivesse escapado para seu engenho. Dona Antônia Josefa do Espírito Santo Ribeiro, sua mãe, faleceu ao receber a notícia do triste fim do filho. Os bens da família foram confiscado por ordem do Provedor da Fazenda Real. Em 18 de agosto de 1823, já depois dos réus da Revolução de 1817 terem sido perdoados, aconteceu o inventário desses bens. O Brasil já vivia um período histórico diferente com independência, ocorrida em 1822.

Com a chegada da independência a vida das pessoas não mudou muito na região. Entretanto, mais tarde, em Vila Flor, uma contenda entre dois políticos faria surgir Canguaretama.

O padre José de Matos Silva não se entendia com Sebastião Policarpo de Oliveira, o senhor do Engenho Juncal. Para provar sua força política na região, o padre, que era deputado provincial pelo partido conservador, pediu a mudança da sede de Vila Flor para o pequeno e atrasado povoado do Uruá. Não foi fácil, mas ele conseguiu.

Em 1860 uma igreja estava pronta, mas era pequena. Foi iniciada outra construção no mesmo lugar. Em 1865 muitos homens deixaram a cidade para engrossar as fileiras de “voluntários da pátria”, que seguiram como soldados para defender o Brasil na guerra do Paraguai. Dos que foram, apenas David Napomuceno conseguiu voltar em 1870.
Em agosto de 1877 um acontecimento iria marcar o pequeno povoado de Baia Formosa. O senhor do “Engenho da Estrela”, João de Albuquerque Maranhão, foi até o povoado para desalojar os moradores alegando posse indevida. Armados de facas e cacetes, os moradores enfrentaram a escolta agressora. Houve seis mortes, entres as quais um filho de João de Albuquerque.

Quando os primeiros trens passaram pela “Estação da Penha”, em 1882, o centro da cidade já era servido de iluminação à gás. Os candeeiros eram apagados nas noites de lua para evitar o desperdício.

A vila de Canguaretama passou à categoria de cidade através da Lei N.º 955 de 16 de Abril de 1885, de autoria do deputado provincial Francisco Gomes da Rocha Fagundes. Não houve festa para um ato tão merecido. A festa maior ocorreu em 4 de março de 1888, com a abolição da escravatura na cidade e a 18 de novembro de 1889, com a comemoração da proclamação da República.

Em 10 de maio de 1890 o município de “Cuitezeiras”, atual Pedro Velho, foi desmembrado de Canguaretama. No mesmo ano foi iniciado os trabalhos da construção da Igreja de São José, que foi concluída em 1892 pelos operários da cidade, época em que também estava sendo erguida a capela de Nossa Senhora da Conceição em Baia Formosa.

No início do século a cidade possuía um serviço de transportes urbanos. O percurso era feito de bonde à tração animal e troles, com os trilhos ligando o porto à estação. Transportava-se principalmente sal, madeira, açúcar e aguardente, além dos passageiros que serviam-se dos trens da “Great Western”.

Durante os anos de funcionamento apenas um acidente ficou conhecido e vitimou o garoto José Lucas. No local do acidente foi erguida a Capela da Santa Cruz. O garoto virou santo popular.

Em 1910 é instalada em Canguaretama a primeira usina de açúcar do Rio Grande do Norte, a Usina Maranhão, propriedade de Fabrício Gomes de Albuquerque Maranhão. Além de empresário, Fabrício Maranhão também era um político de destaque. Irmão dos governadores Alberto Maranhão e Dr. Pedro Velho, ele presidiu a intendência de Canguaretama por ininterruptamente por duas décadas e ao mesmo tempo ainda assumia o mandato de deputado estadual.

Em 1930, a cidade viu a destituição do prefeito e movimentos políticos exaltados. Em 1935 Aliança Liberal tentou organizar um governo socialista no Brasil. O movimento começou em Natal, no dia 23 de novembro, mas logo foi contido pelas tropas do governo. Dois canguaretamenses estavam envolvidos no movimento: os irmãos Arnoud e Oscarina. Ao chegarem a cidade, quase toda população procurou abrigo nas matas com medo dos “comunistas”.

Durante a “2ª Guerra Mundial”, dois Canguaretamenses participaram dos combates na Itália: o “Capitão Raul” e o “Dr. Hernani”, que voltaram para contar a história. Na época já existia um campo de pouso na Salina São Felix, mas outro foi construído no Jiqui. A foz do rio Cunhaú era vigiada ininterruptamente. Houve um grande racionamento de combustível e a população mais pobre se valia de sementes de mamonas na ponta de palitos para vencer a escuridão daquelas noites.

Mal terminara a guerra e a cidade já estava organizando uma grande festa. Foi o “I CONGRESSO EUCARÍSTICO PAROQUIAL”, em celebração aos trezentos anos do morticínio do Cunhaú. O evento, organizado pelo padre Antônio Barros, ocorreu nos dias 1, 2 e 3 de outubro de 1945, obteve grande repercussão e fez nascer a primeira esperança de canonização dos Mártires de Cunahú e Uruassú. Todas as autoridades civis e eclesiásticas do estado tomaram o caminho de Canguaretama, junto veio a elite intelectual da época.

Em 1954 a Câmara Municipal de Canguaretama recebe pela primeira vez mulheres para legislar. Foram as irmãs Guacira Nobre de Lima e Gasparina Nobre, eleitas no então povoado de Baia Formosa.

Em 31 de dezembro de 1958 o município de Baia Formosa foi desmembrado de Canguaretama, mas só foi instalado em 17 de janeiro do ano posterior. O município de Vila Flor foi desmembrado em 31 de dezembro de 1963 e instalado no outro dia. Por essa época o povoado de Piquiri já se firmava com o apelido de “Piquiri das Casas”.
Em 1964 um golpe de Estado coloca os militares no poder. Os soldados “marcharam” sobre a cidade, mas ninguém se sentiu seguro. Neste ano uma catástrofe natural pegou todos de surpresa: uma enchente inundou quase toda a cidade, trazendo desespero para muitas famílias que perderam tudo que tinham. O abrigo principal foi a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

O fornecimento de energia elétrica já existia desde o início do século, mas o velho “Motor de Romualdo” foi desligado quando o governo do estado trouxe a COSERN à cidade. Postes de concreto foram plantados e fios pendurados pelas ruas para levar a energia das grandes hidrelétricas às casas.

A inauguração aconteceu na madrugada de 27 para 28 de setembro de 1965. Depois disso começou a capitulação dos engenhos, que deram lugar a Usina. As salinas ainda agüentaram mais um pouco, mas não suportaram a concorrência. Hoje as fazendas de camarões ocupam os terrenos onde antes funcionaram os tanques de cristalização do sal e criação de peixes.

Em 1967 foi inaugurado o primeiro “ginásio”, o 16 de Julho. E em pleno regime militar (1968), os estudantes publicaram um jornal próprio: o “Sentinela Estudantil”. Não foram pioneiros, apenas seguiram uma tradição de boas edições como “A Penha” de 1915, a revista “Vesper” de 1919, “O Potiguar” de 1922, o “Cunhaú” de 1936 e “O Estudante” de 1955.

Os anos 70 não foram tão significativos. Em 1971 a cidade recebeu a notícia do suicídio de José de Carvalho e Silva, o maior líder político no município depois de Fabrício Maranhão. Houve a inauguração do Hospital Regional de Canguaretama em novembro de 1974.

Em 1985 uma grande festa para comemorar o centenário de elevação do município à categoria de cidade foi feita. Recebemos a prazerosa visita do nosso poeta maior, Homero Homem, que escreveu o Hino do Centenário.

Em 1988 foi iniciado o processo de beatificação dos mártires de Cunhaú e Uruassú, tendo a frente o monsenhor Francisco de Assis Pereira. No mesmo ano surgiu o Jornal “A Voz da Penha”, que se regionalizou nos anos 90 com o nome de “A Voz do Agreste”. Sua 1ª edição totalmente informatizada circulou em 30 de outubro de 1999.
Em 1995 foi realizado o II CONGRESSO EUCARÍSTICO PAROQUIAL. O evento, organizado pelo padre Gilvan Miguel Pereira, relembrou o Morticínio de Cunhaú e Uruassú em seu 350º aniversário, entre os dias 5 e 8 de outubro. Na confiança de uma beatificação, a cidade fez a festa que marcou o fim do século. Na época surgiu o Jornal “O Soveral” para divulgar e registrar os fatos marcantes da paróquia.

Em novembro de 1998 “A Boa Notícia”, boletim informativo da paróquia, anunciava a boa perspectiva em relação a beatificação do Pe. André de Soveral, Pe. Ambrósio Francisco Ferro e seus 28 companheiros. “O Soveral”, em sua VI edição, noticiou a beatificação dos “Protomártires do Brasil” para o dia 5 de março do ano 2000, em Roma.Os índios que habitava a região
Os potiguares estendiam seus domínios por todo o litoral do RN. Eram índios da nação tupi e aliados dos portugueses. Entre os potiguares havia a tribo dos paiaguás, que habitavam a região dos municípios de Canguaretama, Vila Flor, Pedro Velho, Várzea e Espírito Santo. Os índios tupis exibiam porte mediano, acima de 1,65m, de físico bem feito, alegres e dançadores, eram os mais inteligentes. Pescavam, navegavam, cultivavam a mandioca, o milho e outros. Olhos pequenos e amendoados como os da raça mongólica, escuros e encovados, de orelhas grande e cabelos lisos, arrancavam os pêlos da barba até as pestanas e sobrancelhas. Alguns andavam nus, mas cobriam-se com peles de animais, dependendo da época do ano. Paiaguá é uma tribo lendária, que segundo Ferreira Nobre eram canoeiros hábeis e teriam vindo do Paraguai. Câmara Cascudo sempre achou um exagero, pois uma viagem assim deveria deixar registros ou ser lembrada por outros povos. Em Canguaretama existe a localidade do Paraguai, que os mais antigos chamavam de Paiaguá. Nesse local teria sido fixado a tribo dos Paiaguás. Falavam, então o guarani, língua semelhante ao tupi. No Paraguai também existe um local denominado Cunhaú.

A Crôa da Ôstra seria um sambaqui habitado por esses índios. Como no Nordeste, os sambaquis não são formações comuns, é bem possível que tenha sido uma tradição trazida das regiões mais austral. Entretanto, é bom saber que os homens dos sambaquis foram anteriores aos tupis guaranis.


O FORTIM DA BARRA DO RIO CUNHAÚ

O Fortim da Barra foi construído por marinheiros de Dunquerque, quando estiveram no local devido a um encalhe da sua embarcação. Na época, possivelmente meados do século XVI, era comum a presença de franceses no litoral do Rio Grande do Norte. No local, foram obrigados a se demorarem por um pouco mais de tempo, esperando ajuda. O forte possuía 10 canhões de balas de 5 libras e 2 arcabuzes de forquilha que ficavam num fosso circundado de paliçada. Era um reduto quadrangular e duplo, com muralhas que chegavam a três metros de altura e ficava na encosta de uma elevação. Serviu de defesa para o Engenho Cunhaú, que ficava a pelo menos 18 quilômetros de distância. Na defesa contra os invasores holandeses, o fortim foi atacado no começo de abril de 1634, mas a guarnição reagiu eficazmente, abortando a tentativa dos invasores. Na ocasião alguns moradores foram degolados. A guarnição, que estava sob o comando do Capitão Álvaro Fragoso de Albuquerque e se compunha de 27 homens, se dirigiu ao local para ajustar as contas com o inimigo, que debandou. Os holandeses já haviam se estabelecidos em Natal desde dezembro de 1633, dominavam a Fortaleza do Santos Reis (Forte do Reis Magos) e tentavam tomar o Engenho Cunhaú. Em uma Segunda tentativa os holandeses se organizaram melhor. O conselheiro Stachouwer deixou o Forte Ceulen e se dirigiu pelo mar em direção a Barra do Cunhaú. Já o Coronel Cristóforos Arciszewski, partiu por terra com 228 soldados e 50 índios. O forte foi atacado de surpresa durante a noite de 21 para 22 de outubro. Mesmo com o alerta dos cães, os holandeses aproveitaram a escuridão de um sábado, último dia de lua minguante, e fizeram uma ofensiva rápida e violenta, tomando o forte. A luta foi muito violenta e cruel. Saindo com tudo de valor que conseguiram levar, a embarcação holandesa naufragou na saída da barra. Tudo que restou do Fortim da Barra, o tempo apagou. Nem sua localização exata é possível afirmar com precisão. Resta apenas uma lembrança distante da crueldade da luta e das riquezas saqueadas, que virou lenda no imaginário do povo.

O MORTICÍNIO DE CUNHAÚ E URUAÇU

No fim da tarde do dia 15 de julho, chegou Jacob Rabe ao Engenho Cunhaú e se apresentou como representante do governo holandês para convocar uma reunião, marcada para o dia seguinte. Mesmo dizendo estar em missão de paz, os colonos suspeitavam que algo de cruel estava para acontecer. Um edital assinado pelo Conselho Supremo foi fixado na porta da igreja. Seu conteúdo obrigava os vizinhos do lugar a comparecer após a missa para tratar de “negócios” e comunicava que a pessoa alguma se faria o menor agravo. Logo após retirar-se, o engenho entrou em uma confusão silenciosa. A última lua cheia do mês de julho chegou tarde, mesmo assim encoberta pelas nuvens pesadas que fechavam o céu daquele sábado assustador.

Todos entendiam o perigo por qual passavam, mas pouco podia ser feito para evitar o pior. Na casa grande as conversas centravam-se nesse único assunto. A noite não esperou por respostas, passou com rapidez. Cada um carregava consigo o medo do que aconteceria na manhã seguinte. Na manhã do domingo, 16 de julho de 1645, o padre André de Soveral foi o primeiro a chegar na igreja e tocar as badaladas para chamar os fiéis à missa de Nossa Senhora do Carmo. A presença do padre encorajou o povo e logo a igrejinha ficou repleta de fiéis. A chuva muito forte impediu que todos da região deixassem suas casas. Os caminhos encharcados dificultavam a caminhada. Os que chegavam na igreja, limpavam os pés enlameados e entravam se benzendo. Nenhuma arma trouxeram. Receosos com a presença de Jacob Rabe, alguns decidiram ficar esperando na Casa Grande.

A missa foi iniciada e tudo corria bem até o sagrado instante em que o padre elevou em suas mãos a hóstia e o cálice em preparação à ceia da comunhão do Corpo e Sangue de Cristo. Um silêncio sinistro tomou o templo quando o sinal de Jacob Rabe iniciou o momento da invasão definitiva, mandando cercar a igrejinha. O pânico foi horrível. Com a igrejinha fechada não havia como fugir. Sabendo que iam morrer, todos rezavam pelo perdão de Deus aos pecados. Sem resistência um grupo de índios avançou sobre o padre. André de Soveral mostrou-lhes a cruz e advertiu sobre o castigo de Deus aos ímpios. Os índios tapuias hesitaram diante da cruz, mas, excitados pelos holandeses protestantes, Jererera mostrou seus dotes guerreiros e saltou arredio sobre o sacerdote desferindo- lhes golpes mortais. Ferido mortalmente, o velho padre ainda tentou se erguer apoiando-se nas paredes do templo. Sua sofrível tentativa deixou as marcas indeléveis de sua mão ensangüentada, que duraram séculos nas paredes do templo.

Tudo foi muito rápido. Em meio aos gritos e orações, o sangue banhou o chão da igrejinha. As armas dos inimigos se defrontaram contra a coragem e a fé dos fiéis, que receberam a graça de suportarem a missão de serem mártires da Igreja de Jesus Cristo. Ao final do massacre muitos corpos tinham tombado mortos ao chão. Após o massacre na igreja, as casas foram invadidas e saqueadas e ocorreram lutas violentas na Casa Grande do Engenho. Dos que tentaram fugir, poucos se salvaram. Alguns escaparam pelo telhado e ganharam o caminho sombrio das matas desconhecidas. As crianças que escaparam da morte foram levadas pelos indígenas, que também despedaçaram os corpos das vítimas e, com muita festa, roubaram suas melhores vestes. Sobre o corpo de Domingos Carvalho, os índios dividiram moedas de ouro entre si. 69 morreram. Apenas Gonçalo de Oliveira foi poupado, pois administrava o engenho e era considerado aliado dos holandeses.


JACOB RABE

Era alemão nascido no Condado de Waldeck e reconhecido como a personalidade mais detestada na Capitania do Rio Grande. Citar Jacob Rabe como judeu se tornou popular, mas não há fundamento para tal afirmação. Seu nome sugere essa interpretação, sendo Jacó um substantivo próprio de tradição semítica. Rabi seria erroneamente confundido por rabino, e teríamos a perfeita tradução para Rabino Jacó. Jacó Rabe era um homem inteligente, poliglota (pelo menos, falava os idiomas de alemão, holandês, português, tupi e tarairiú), que deve ter sido muito importante aos holandeses. Deixou uma crônica famosa, ou relação de viagem que contém preciosas informações sobre a geografia da capitania, bem como sobre a etnografia dos tapuias. Tal crônica foi aproveitada nos trabalhos, posteriores, de Barléu e de Marcgrave.

OS SANTOS BEATOS DO CUNHAÚ

O padre André de Soveral era brasileiro, nasceu na Vila de São Vicente, possivelmente no ano de 1572. Para ser padre entrou na Companhia de Jesus, na Bahia, em 6 de agosto de 1593. Na Bahia também estudou Latim por quatro anos e Teologia Moral por um ano e meio. Na época, ser jesuíta era sinal de destaque e, como tal, exerceu a função de professor entre os índios para espalhar a luz do Evangelho e converter o gentil. É bem possível que quando tenha partido para a Capitania do Rio Grande já não era mais um jesuíta, ingressando no Clero Secular. Em janeiro de 1600, seu nome estava incluído no Catálogo de Padres e Irmãos da Província do Brasil, como se pertencesse ao colégio de Pernambuco. Em 1606, saiu de Goiana junto com seu superior, padre Diogo Nunes, com destino à Capitania do Rio Grande. No Engenho Cunhaú foi o primeiro (possivelmente o único) padre da Igreja de Nossa Senhora das candeias. Não se sabe ao certo o ano exato da sua chegada ao Cunhaú, mas em 1614 ele já possuía terras na região e era vigário na referida paróquia. Falava fluentemente a língua indígena, o tupi ou nhengatu. Os portugueses o descrevem como um ancião de 90 anos na época do morticínio, mas é bem possível que teria apenas 73 anos. Foi morto por Jererera, índio potiguar, que possivelmente foi evangelizado com suas palavras.

Domingos Carvalho, ao que parece, era um antigo morador do Engenho Cunhaú. Seu nome foi citado pelo holandês Adrien Van Der Dussem, em 1639, como sendo trabalhador do engenho. Depois do massacre, sobre seu corpo os índios contaram e dividiram entre si as moedas de ouro dele roubadas. Pouco se sabe sobre este homem, que foi um dos poucos identificados no massacre.

O POVOADO DE URUÁ

Quando foi transferida para o antigo “Saco do Uruá” a vila sede do município de Canguaretama, era esse lugar um pobre arraial, onde não havia sequer um templo ou capela e a paz de servir ao culto divino, e por isso num armazém é que se faz a instalação dos ofícios religiosos. “Uruá foi arraial onde os índios se empregavam no fabrico de vasos de barro (cuias, que ornavam, bordando-as bem como cestinhas de palhas e cordas de embiras). Enquanto era apenas o “Saco do Uruá”, o lugar estava somente habitado por índios e negros.

A MUDANÇA DA SEDE DO MUNICÍPIO

A razão fundamental da súbita mudança da sede da freguesia e, pois, do município, de Vila Flôr para o “Saco do Uruá” residia na intriga particular e política entre o capitão Sebastião Policarpo de Oliveira, senhor do engenho “Juncal” e representante da família Fagundes e o padre José de Matos Silva, vigário de Vila Flôr, secundado por seu irmão, capitão Anacleto José de Matos e pelo tabelião local, Galdino Álvares Pragana. Foi, com certeza, a influência política do vigário Matos, então, deputado provincial (1858-59, pela 3ª vez) e membro destacado da situação liberal dominante na província e no país, que determinou a votação da lei Nº 367 de 19 de julho de 1859, segundo a qual foi “Uruá” elevada à categoria de Vila de “Canguaretama”.

URUÁ, PENHA OU CANGUARETAMA

Dizem que o nome de “Canguaretama” foi lembrado pelo Brigadeiro André de Albuquerque Maranhão Arcoverde; mas Frei Serafim de Catania, andando em missão pelo “Uruá”, deu à localidade o nome de “Penha”. E a lei provincial, Nª166 de 27 de março de 1859, confirmou esse nome para a freguesia. A duplicidade da designação local originou confusão de parte a parte. Mas tarde foi celebrado um acordo pelo qual o nome de “Canguaretama” restringiu-se aos atos administrativos e civis e o de “Penha” são de caráter eclesiásticos, conciliando-se assim os interesses em divergência. “Penha é o nome vulgar da cidade e do município, que só oficialmente, é designado por Canguaretama. A elevação à cidade se deu pela lei Nº 955 de 16 de abril de 1885.

OS PRIMEIROS HABITANTES

As informações sobre o povoado do Uruá são raras e pouco confiáveis. A maioria dos escritores do Rio Grande do Norte dizem que Uruá era “um pobre arraial habitado por negros e índios”. O escritor paraibano, Antenor Espíndola de Oliveira Lima, contando a história de seu bisavô, Joaquim José de Oliveira Lima, diz que este saiu de Lisboa em 1834, com destina a Canguaretama. Chegando a cidade, foi recebido pelo comerciante e também português, Antônio de Araújo Lima. Na cidade possuíram loja de tecido e residência. Foi por volta de 1860 que começaram a chegar uma grande quantidade imigrantes em Canguaretama. A cana já se instalara com sucesso e daí em diante chegaram muitos portugueses como Francisco Antonio Alves Teixeira, (conhecido por Xico Marinheiro), José Maria Jorge de Azevedo, Manoel Antonio de Medeiros, (antigo dono do “Pituassú”), José de Alpoim, Antonio Rafael e Joaquim Pica-pau. Estes fixaram residência, abrigando pequenas casas comerciais na rua que em 1930 chamava-se “4 de março”. Os primeiros comerciantes talvez vieram para Canguaretama oriundos de Pernambuco, depois da revolta da praieira.

A PRIMEIRA CONSTRUÇÃO DE ALVENARIA NO CENTRO DA CIDADE

A primeira construção de alvenaria levantada no centro da cidade foi o sobrado de João Evangelista Pessoa, no começo da Rua Grande, esquina da praça Augusto Severo com a rua André de Albuquerque. Era um sobrado. Foi comprado por José Parente Viana, proprietário do Engenho Outeiro, no final do século XIX. Depois disso, o prédio passou a ser ocupado por Bonifácio Pinheiro, e Mery Boudoux que fez uma reforma retirando o sótão e colocando grades nas janelas e um retrato em azulejo de Dom Vital.

O FINAL DO SÉCULO XIX

O centro da cidade já era servido de iluminação à gás, em 1872. Os candeeiros eram apagados nas noites de lua para evitar o desperdício. Canguaretama era formada por um largo e algumas ruas bem alinhadas com boa casaria. Possuía um porto sofrível, onde podem fundear barcos de grande calado, porém, muito freqüentemente por pequenas embarcações. O comércio tinha tomado um desenvolvimento extraordinário nos últimos anos. A indústria local limitava-se a objetos de consumo. Havia muitos engenhos para o fabrico de açúcar e o descaroçamento de algodão, movidos a vapor, água ou tração animal. Existiam duas escolas públicas para ambos os sexos. Também uma delegacia de polícia, três subdelegacias, dois juizados de paz e uma Mesa de Rendas. O Colégio eleitoral era formado por 29 eleitores.

A ESTAÇÃO DA PENHA

Os primeiros trens passaram pela “Estação da Penha” em 1882. A estrada de ferro foi criada pela Lei Provincial nº 682 de 8 de agosto de 1873. O trecho de Natal a Canguaretama foi aberto ao tráfego em 31 de outubro de 1882. “Penha” era o nome designativo da estação ferroviária, a princípio chamada de Natal Nova Cruz, e desde 1900, conhecida por GREAT WESTERN OF BRASIL RAIL WAY COMPANY. As passagens em 1897 custavam a seguinte quantia: A 1ª Classe, de Canguaretama para Natal ou vice versa, custava 8$100; a 2ª classe custava 4$100; as bagagens e encomendas pagavam $600 até 15 quilos. Saindo de Canguaretama as 7:18 horas, chegava em Natal as 11:00 horas. A volta se dava as 13:15, saindo de Natal, e chegando as 16:55 em Canguaretama.

O BONDE

No início do século a cidade possuía um serviço de transportes urbanos. O percurso era feito de bonde à tração animal e troles, com os trilhos ligando o porto à estação. Transportava-se principalmente sal, madeira, açúcar e aguardente, além dos passageiros que serviam-se dos trens da “Great Western”. Durante os anos de funcionamento apenas um acidente ocorreu e vitimou o garoto José Lucas. No local do acidente foi erguida a Capela da Santa Cruz.

CINEMA E TEATRO

O primeiro cinema de Canguaretama chamava-se Cine Teatro Conceição. Depois tivemos o Cine Canguaretama. O Cine Luzitânia foi fundado em 1972 por Geraldo Antônio de Oliveira num prédio alugado pertencente a Yara Gomes na Praça Augusto Severo. Tinha espaço para pelo menos 200 pessoas sentadas e uma excelente tela de projeção adaptada para, em seu lugar, servir como palco de teatro. Antônio Domingos da Silva gerenciou os trabalhos até 1987, quando o cinema foi fechado. Na última sessão foi exibido o filme “A paixão de Cristo”. Em 1994, Antônio Domingos da Silva abriu o Cine Plaza, na rua São José. Não tinha sofisticação e atendia a uma classe menos privilegiada. Sua última exibição foi em 1997, com o filme “Matar ou morrer”, estrelado por Van Dame. No seu lugar passou a funcionar a Igreja Universal do Reino de Deus.

Um comentário:

Francisco Galvão disse...

Muito obrigado, Otávio.